No post anterior sobre a CCB – Congregação Cristã no Brasil, expus um dos meus porquês, que é o fato de a CCB não promover estudos bíblicos e nem concordar que seus membros participem de cursos promovidos por instituições bíblicas. Naquele post, um irmão postou nos comentários uma lista de referências bíblicas justificando diversas práticas e linhas de pensamento da CCB. Essa lista já conheço de longa data. Desde minha infância meu pai já possuía uma delas. Não permiti a publicação desta lista no outro post, mas disponibilizo aqui para download, na íntegra como o irmão Glenyo enviou: clique aqui!
Em algumas coisas da lista posso concordar, mas em muitas discordo e sobre estas vou explicar o que penso. Para começar, uma contradição interessante: no tópico “Porque não damos o dízimo“, o autor tenta justificar que este “era da lei do velho testamento, seguimos apenas o novo testamento“. Engraçado, pois nos tópicos seguintes, especialmente naquele em que o autor tenta explicar o porquê não se deve ter o cargo de pastor na igreja, o mesmo utiliza-se de inúmeras referências do antigo testamento.
Ah! Essa questão do pastor é bem interessante, por isso hoje resolvi escrever sobre “a CCB contra os pastores” e aqui exponho o meu porquê.
Essa é uma questão histórica, o fundador da CCB Louis Francescon vivia em um meio onde comumente se aceitava o título Pastor para o líder da igreja, afinal, o termo pastor é justamente para aquele que cuida das ovelhas. Louis Francescon cita em seu relato o seguinte:
“Em fins de Abril de 1907, o Senhor me fez encontrar com um irmão Americano, um dos primeiros a receber a Promessa do Espírito Santo em Los Angeles, no ano de 1906 e, por meio dele, soube que na W. North Ave, 943, havia uma missão que anunciava a Promessa do Espírito Santo e que o próprio pastor (W. H. Durham) a havia recebido. Na primeira semana frequentei sozinho aquele serviço e o Senhor me confirmou que aquela era Sua Obra. No domingo seguinte me acompanhou o resto do grupo.”
Veja bem, a igreja era presidida pelo Pastor Durham, esse pastor recebeu a Promessa do Espírito Santo e, por fim, Deus confirmou para Louis que aquela era Obra de Deus, ou seja, uma igreja legítima.
Mais tarde, Louis Francescon recebeu uma mensagem de Deus através de Durham para ir levar o Evangelho à Colônia Italiana e, segundo Francescon, depois disso Deus confirmou diretamente com ele.
Como pode, então, Louis Francescon ter fundado uma igreja que diz que Deus abomina os pastores? O fato é que a Congregação adotou o termo Ancião por influência Valdense (estes tinham cada igreja local governada por anciãos, além de anciãos contavam com apóstolos que saíam em campo para levar o Evangelho), o fato de a CCB não adotar o título de pastor, aliado à falta de preparo no estudo da Bíblia fez com que muitos crentes lessem as profecias, nas quais Deus exorta os pastores ao pé da letra e com interpretação tendenciosa. Veja um exemplo:
Jeremias 50:6
Ovelhas perdidas têm sido o meu povo, os seus pastores as fizeram errar, para os montes as desviaram; de monte para outeiro andaram, esqueceram-se do lugar do seu repouso.
E outro:
Jeremias 23:1,2
Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto, diz o SENHOR.
Portanto assim diz o SENHOR Deus de Israel, contra os pastores que apascentam o meu povo: Vós dispersastes as minhas ovelhas, e as afugentastes, e não as visitastes; eis que visitarei sobre vós a maldade das vossas ações, diz o SENHOR.
Essas profecias se referem aos líderes de Israel, os quais ao invés de conduzir o povo nos caminhos do Senhor, os fazia errar e ainda despojava-os.
O termo pastor é justamente para aquele que conduz um rebanho e essas profecias não estão dizendo que Deus não gosta de pastores, mas sim que Deus abomina aqueles que se dizem pastores mas não fazem o seu trabalho. Tanto é que na continuação de Jeremias 23, versículos 3 e 4, encontramos o seguinte:
E eu mesmo recolherei o restante das minhas ovelhas, de todas as terras para onde as tiver afugentado, e as farei voltar aos seus apriscos; e frutificarão, e se multiplicarão.
E levantarei sobre elas pastores que as apascentem, e nunca mais temerão, nem se assombrarão, e nem uma delas faltará, diz o SENHOR.
Agora, raciocinem comigo, se Deus abominava os pastores, porque após ter juntado novamente suas ovelhas colocaria sobre elas outros pastores? A conclusão aqui é: há pastores bons e pastores ruins.
Hoje, falando de líderes de igrejas, não é diferente. Há os bons e os ruins, mas não é o termo utilizado para denominar o pastor que o torna ruim. Há anciãos bons e maus. Assim como Deus também profetizou sobre anciãos maus:
Isaías 3:14
Filho do homem, fala aos anciãos de Israel, e dize-lhes: Assim diz o Senhor DEUS: Viestes consultar-me? Vivo eu, que não me deixarei ser consultado por vós, diz o Senhor DEUS.
O SENHOR entrará em juízo contra os anciãos do seu povo, e contra os seus príncipes; é que fostes vós que consumistes esta vinha; o espólio do pobre está em vossas casas.
Ezequiel 8:12
Então me disse: Viste, filho do homem, o que os anciãos da casa de Israel fazem nas trevas, cada um nas suas câmaras pintadas de imagens? Pois dizem: O SENHOR não nos vê; o SENHOR abandonou a terra.
Isaías 9:14-16
Assim o SENHOR cortará de Israel a cabeça e a cauda, o ramo e o junco, num mesmo dia. (O ancião e o homem de respeito é a cabeça; e o profeta que ensina a falsidade é a cauda). Porque os guias deste povo são enganadores, e os que por eles são guiados são destruídos.
Ezequiel 20:3
Filho do homem, fala aos anciãos de Israel, e dize-lhes: Assim diz o Senhor DEUS: Viestes consultar-me? Vivo eu, que não me deixarei ser consultado por vós, diz o Senhor DEUS.
Nem por isso posso dizer que está errado ter um ancião como líder da igreja. É preciso estudar a bíblia, deixar de pegar esses versículos isolados de seu contexto e ainda mal interpretados para justificar afirmações errôneas. Muito se fala na CCB que a letra mata, mas pelo que vejo o autor dessa lista acabou se utilizando apenas da letra e esqueceu do raciocínio e, porque não dizer, do próprio Espírito.
Uma das acusações que a CCB faz contra os pastores é o fato de eles receberem salário, mas isso é bíblico. A pessoa que se dedica a obra dever receber o sustento de algum lugar. Como pode o líder de uma igreja se envolver completamente com os trabalhos da igreja e, ainda assim, trabalhar duro para o seu sustento e de sua família? A afirmação de que Paulo agiu dessa forma não justifica, pois Paulo sequer era casado e se sujeitou a uma vida de completa entrega, sem contar que o seu trabalho não era cuidar de uma igreja e sim, viajar pelo mundo evangelizando. Mas, isso é uma outra história a ser discutida mais tarde.
Teologia e Religião
Disseram…